
A cidade corpo...
Um ambiente construído, um espaço de fluxos, fervilhante de actividades.
Palco de memórias e significações.
O lugar dos eventos.
O lugar dos actores.
ACTO I
“Nas ruas as pessoas viviam de tal modo apertadas, as casas eram tão pegadas umas às outras e com cinco seis andares, que não se via o céu, e, cá em baixo (...) o ar estagnava como nos esgotos húmidos e estava saturado de odores”.
O Perfume, fala-se de Paris, século XVIII.
“As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar (...), os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios.”
O lugar da história.
“Misturavam-se os odores de homens e animais, de vapores de comida, de água, (...), sabão e pão fresco e ovos cozidos em vinagre (...), cerveja e lágrimas...
Milhares e milhares de odores formavam uma pasta invisível, que enchia o mais fundo das ruas e ruelas...”
Não é a nossa história... nem o lugar da nossa história.
Felizmente, ou talvez não...
Agora movem-se os corpos num cenário estático. E os corpos e o calor dos corpos e a dinâmica dos corpos vão-se diluindo na inércia do cenário.
Coimbra. Esgotam-se as vibrações dos espaços, o perfume dos corpos, o jogo, a festa.
Adormecem os actores.
ACTO II
Ninguém está lá fora...
Entre a Portagem e o Açude, duas margens de costas voltadas.
As potencialidades paisagísticas e lúdicas da cidade escondem-se na indiferença face à sua frente de água.
O que deveria ser a fachada da cidade funciona hoje como traseiras de uma avenida _ a Fernão de Magalhães. A sua proximidade física com o rio é quase ignorada dada a opacidade dos edifícios e a ausência de interrupções na continuidade urbana da avenida. Entre este eixo e o rio continuam implantados alguns edifícios de fábricas já falidas, instalados alguns armazéns e a via ferroviária, uma barreira pouco penetrável a acentuar a forte descontinuidade entre a cidade e o rio.
Ninguém está lá fora...
Na outra margem, o vazio urbano.
Dormem os actores, ainda.
ACTO III
Está a nascer um arquitecto.
Sentem-se as rupturas físicas entre a cidade e o vazio de grandes áreas do seu tecido consolidado.
Esboçam-se vontades de estender o tecido urbano para a outra margem...
Desenham-se pontes... Habitáveis...
É o desejo de encontrar o sentido da representação da cidade.
É o desejo de novos cenários.
É o desejo de recriação da fachada da cidade.
O exercício de pensar a cidade agita o aluno, fascinado pela oportunidade, ainda que imaginária, académica, de transformar e promover uma cidade adormecida.
Acordem-se os actores!
ACTO IV
O imaginário. As ideias. A criação.
Desenham-se as hipóteses...
Pensa-se a reestruturação urbana através da costura de áreas reaproveitadas dos vazios com o tecido histórico, ou através de operações de escala territorial com a introdução de novos usos.
Coimbra e a sua frente de água tornam-se cenário do espectáculo ou do evento.
Nasce o fascínio pela ponte, a vontade de alcançar a outra margem, habitando... a ponte que fala a linguagem das metáforas, que escreve poesia sobre o rio.
De novo a outra história, o perfume. Fala-se de Paris, século XVIII.
“Esta ponte estava de tal modo guarnecida, dos dois lados, por prédios de quatro andares que, ao atravessá-la, não se avistava o rio e se julgava estar numa rua igual a tantas outras, erguida em terra firme e, além disso, extremamente elegante.”
Não é a nossa ponte... mas podia ser.
A atravessar o rio, ruas, praças, museus, jardins...
Desenham-se as vibrações dos espaços, imagina-se o conflito de corpos, a mistura de sons e cheiros, a festa. O perfume...
ACTO V
Acordaram os actores!
Lá fora, muita gente...
coimbra_maio2001
© Joana Couceiro
in catálogo da exposição “Pensar Cidade... Pontes Habitáveis”,
pela organização (Bruno Gil, Carina Silva, Joana Couceiro, Pedro Baía, Vera Pinto), Maio 2001