How many of these buildings deserve eternal life?
Na página 1099 do S,M,L,XL, Rem Koolhaas questiona a permanência ou não, dos edifícios construídos entre os anos 50 e 90 de qualidade arquitectónica abaixo da média.
A propósito de um concurso de extensão de La Défense, revisita o tema da tabula rasa do Plan Voisin de Corbu e propõe demolir todos os edifícios sem significado com mais de 25 anos e preservar os de inquestionável interesse arquitectónico e simbólico. Segundo a visão optimista de Koolhaas, vastas áreas ficariam então disponíveis para construir um mundo melhor, a new beginning for generations to come.
A proposta da Tabula Rasa Revisited por Koolhaas assume uma radicalidade diferente do plano de Corbu; o Plan Voisin insere-se num processo violento de destruição do tecido urbano do centro da cidade de Paris, enquanto que o plano de La Défense defende que o carácter de uma periferia desqualificada pressupõe, desde logo, a sua eliminação a curto prazo.
A nova abordagem de Koolhaas consiste num reforço da consciência que os edifícios não são eternos, que a dinâmica das cidades passa também pela ocupação natural ou forçada dos edifícios e espaços obsoletos; ocupação esta, que tanto pode ser a um nível físico, de recuperação ou de demolição, como também a um nível programático.
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No mesmo dia em que retiram o título de Cidade-Museu da placa da A1, a Câmara Municipal de Coimbra aprova por unanimidade uma nova política urbana proposta por um grupo de estudantes de arquitectura.
Recuemos... Tudo começa nos anos 40 quando é apresentado à Câmara Municipal de Coimbra o plano urbanístico do arquitecto e urbanista De Groer, de ‘‘Urbanização, Embelezamento e Extensão’’ da cidade.
Um dos projectos de De Groer previa a execução de parcelas do tecido urbano da Baixa, com o objectivo de criar uma grande avenida que ligaria a Igreja de Santa Cruz e a Praça 8 de Maio à Avenida Navarro junto ao rio Mondego[1]. O plano de demolições não chega a ser totalmente concluído e, como consequência da interrupção dos trabalhos, um rasgo na malha urbana da Baixa de Coimbra é criado. Fruto de um projecto que nunca chegou ao fim, surge assim um vazio residual, sem sentido.
Espontaneamente, a cidade apropria-se do espaço, transforma-o em recinto de feira, em parque de estacionamento, e confere-lhe uma identidade própria ao baptizá-lo com o nome Bota-Abaixo. Comerciantes e utentes da extensa área comercial da Baixa tornam-se agora actores de um novo palco da cidade.
Cria-se, então, uma realidade urbana não projectada por arquitectos, nem por políticos, onde o programa para o local é definido pelos próprios cidadãos.
Este novo espaço situado na Baixa, entre a Praça 8 de Maio e o rio Mondego, começa a ganhar sentido, constituindo um ponto estratégico importante de reencontro da cidade consigo mesma. O Bota-Abaixo deixa de ser um mero espaço residual para se afirmar como um elemento urbano que, fazendo juz à sua história, possibilita a criação de um projecto que evolui no tempo de acordo com a vontade da população. No Bota-Abaixo, um novo processo urbano é posto em prática, o conceito de Tabula Rasa Participated.
De 20 em 20 anos, no dia da cidade de Coimbra, são apresentados projectos e ideias para o espaço do Bota-Abaixo. O projecto, escolhido democraticamente pela cidade, será construído no local. Passados 20 anos, um outro concurso tem lugar, de forma a substituir o anterior projecto. Nesse dia, todos os habitantes são convidados a assistir à apresentação dos projectos, seguida de um referendo local. A demolição do projecto anterior é transmitida em directo para todo o país. Trata-se de um dia único, único em 20 anos. Representa como que um virar de página, um novo ciclo, uma outra oportunidade.
Neste dia, várias ideias são apresentadas, algumas complexas, polémicas, outras de qualidade discutível, as inevitáveis ideias de mau gosto... Os debates, necessários, sucedem-se; discute-se o futuro daquele terreno, as consequências sociais, espaciais e económicas... Todos pensam, questionam, criticam, sugerem; que fazer com este espaço?
No fim, a democracia do povo decide em conformidade.
De 20 em 20 anos, de geração em geração, o Bota-Abaixo torna-se um lugar de festa, de esperança.
[2023]
Um museu de arte contemporânea da fundação Guggenheim instala-se em Coimbra. Museu tipo bubble, apresenta-se como objecto mutante, reagindo em tempo real, adaptando-se ao visitante segundo a lógica gizmo. Durante este período, várias exposições passam pelo museu, de fotografia, de artes plásticas, de arquitectura... Ciclos de cinema, peças de teatro, espectáculos de dança, raves, desfiles de moda, workshop’s, conferências, debates...
A cidade cultiva-se...
[2043]
Para assinalar os 100 anos das demolições do Bota-Abaixo, reconstitui-se a malha existente dos anos 40 do século XX. O carácter do tecido urbano da altura é mantido, com as ruas estreitas, largos, dilatações e enfiamentos. Através de uma intervenção num sítio histórico que responde às necessidades do seu tempo, dá-se origem a uma revitalização das áreas envoventes. A partir deste momento, o Bota-Abaixo torna-se pedra fundadora do projecto de recuperação de toda a Baixa.
[2063]
Um silo-parque-verde em altura é construído. No 2º piso, dezenas de crianças jogam à bola e correm aos gritos, enquanto os pais lêem o jornal. No 6º, estudantes de capa e batina estudam ao longo de pequenos montes artificiais com vista para o Mondego. No 3º, casais apaixonados fazem piqueniques à volta de um lago artificial. Ao fundo da Rua da Moeda, grandes pinheiros se erguem. À sombra do castanheiro, o local de encontro de quatro velhotes para mais uma sueca.
[1] ECDJ 3, p. 48.
© Pedro Baía
in Revista NU #12 Onde está Coimbra?, Junho 2003
