Crítica críptica ou atípica?




Nos dias 4 e 5 de julho, no Auditório da Biblioteca Almeida Garret no Porto, decorreu o “Seminário crítico Influx arquitectura portuguesa recente”[1]. Durante dois dias, os conceitos propostos no ciclo Influx – confluência, compulsão, confrontação, condensação, deslocação – foram sujeitos a debate público.

Como moderador da Sessão 1_ Confluência, Jorge Figueira inaugurou o seminário.
Manuel Graça Dias, convidado a fazer o comentário da primeira sessão, apresentou uma leitura pessoal das temáticas e das obras expostas dos ateliers ARX Portugal, Guedes + deCampos e as*. Num discurso a tender para um moralismo provocatório, Graça Dias reflectiu sobre a questão da nomenclatura dos ateliers, siglas tipo MRPP’s. Criticou o uso excessivo de diagramas funcionais, de esquemas programáticos que espelham uma estratégia tecnocrática que, questiona, não possui consistência suficiente. Ironizou o facto de encararem as maquetes como objectos de apresentação a posteriori, e não como instrumentos de trabalho que evoluem com cortes e acrescentos à medida da evolução do projecto. Constatou que as três equipas presentes apresentavam fotografias de maquetes com mãos, à boa maneira koolhaasiana. Desconstruiu todo um processo de trabalho(?), de exposição(?), de marketing(?). Na opinião de Graça Dias, o encarar das maquetes como peças de arte ou a referência excessiva a Donald Judd ou Dan Graham desvirtua o trabalho do arquitecto. “O arquitecto realiza um trabalho de uma vida, como também o designer ou o artista plástico”.
Concluindo, confessou a irritação provocada pela evidente colagem das equipas dos vários arquitectos Influx às arquitecturas holandesas; não querendo com isso dizer que seja contra a produção arquitectónica actual holandesa. Jorge Figueira ilustrou esta questão, de modo incisivo, através de um episódio com Fernando Távora. Contou que lhe perguntara uma vez porque não se podia copiar Gehry em Portugal, da mesma maneira que a sua geração copiara Corbu. Távora, com uma auto-crítica lúcida e surpreendente, respondeu que, no fim, acabavam por produzir caricaturas; que as obras de Corbu faziam sentido num contexto específico e quando transpostas para a nossa realidade se transformam em sub-produtos, em caricaturas forçadas.

Bem... O debate estava lançado. Foi num ambiente de alguma tensão, expectativa e nervosismo que as três equipas responderam perante um auditório bem composto e esclarecido.

A temperatura aumentou na sala com a argumentação de Pedro Machado Costa, da equipa dos as*. Na sequência de um discurso reflexivo, falou das dúvidas com que ele e o atelier se deparam, confrontou Graça Dias com contradições decorrentes do comentário de abertura e iniciou o debate para a discussão em torno do exercício da crítica de arquitectura portuguesa.

Graça Dias, com responsabilidades acrescidas na reflexão do tema, como director do Jornal Arquitectos, sentiu que algo se estava a passar. E não só. Muitos outros, na plateia e mesmo a seu lado, aperceberam-se da crítica à crítica. Não uma crítica superficial, mas, através de várias vozes, um questionar das políticas editoriais em relação ao modo como se produz crítica no panorama nacional.

A crítica de arquitectura, é óbvio, possui vários tipos de abordagem. Um texto que discorre sobre uma obra recente, publicado num jornal generalista como o Público ou o Expresso, procura acima de tudo educar um público mais alargado, fornecer vocabulário, desenvolver conceitos, apresentar propostas de leitura e ajudar a compreender os projectos através de uma linguagem não muito cifrada, não muito criptada.
E foi neste contexto que se começou a falar da crítica críptica.

Manuel Mendes, autor do ensaio “...A experiência é uma invenção...”, presente no livro Influx, interveio, orgulhoso da sua postura marginal, defendendo uma crítica mais densa, de acordo com a semântica e lógica da esfera arquitectónica, mesmo que isso signifique uma perda substancial da amplitude de comunicação.
Graça Dias sublinhou que a sua filosofia consiste na abertura, na transparência e não num enclausuramento da disciplina, fechada sobre si mesma. Sendo a arquitectura pertencente ao domínio público, a sua discussão abrangente faz sentido na perspectiva de um maior apelo à consciência arquitectónica.
Ricardo Carvalho, autor do ensaio “A Arte da Oscilação”, também presente no livro Influx, lembrou que foi através dos críticos de cinema que aprendeu a ler, a apreciar e a criticar os filmes. Os críticos da 7ª arte, não sendo generalistas, abordam os objectos de análise de maneira descomplexada, através de uma linguagem específica. O resultado do cinema como produto de massas é, em grande parte, fruto da discussão e leitura heterogénea dos críticos.
Graça Dias rematou que o facto de uma obra de arquitectura ser escolhida como alvo de crítica é já significativo da sua importância e pertinência.

Nos vários espectros de análise de arquitectura, desde a jornalística à das teses de prova final, mestrado e doutoramento, a reflexão e a crítica encontram-se presentes de forma diferente. A distinção dos vários campos de abordagem revela-se, então, essencial para perceber a cena actual da crítica. Saber onde e em que moldes se pode operar a crítica críptica pode ser a resposta para os que denunciam a crítica atípica que se produz no meio editorial português.

Vivemos numa época em que tudo é possível. Os dogmas cairam. As normas totalitárias e universais do tempo heróico moderno não fazem hoje sentido. Mas esta liberdade porno-liberal, de ausência de moralidade, não pode impedir o olhar crítico relativamente à validade de uma caixa objecto num determinado contexto, à pertinência do retomar de certos temas do modernismo, ao exagero da intenção, ao egocentrismo, ao excesso de silêncio, à nostalgia, à colagem descarada, ao comodismo, à falta de coragem, ao autismo, à timidez... Não pode impedir a procura de compreensão, de um certo sentido aparentemente lógico, onde se produzem fragmentos e camadas de análise crítica que, no seu conjunto, contribuem para a compreensão dos problemas com que hoje nos deparamos.


5 Julho 2003

[1] Comissariado do Ciclo Influx: Nuno Grande, Jorge Figueira (OASRN), Pedro Gadanho, Luís Tavares Pereira (Influx)

© Pedro Baía
in Revista NU #14 Oposições, Novembro 2003