Didier Fiúza Faustino: vers une architecture d'action




Didier Fiúza Faustino nasce em França no mítico ano de 1968. Termina o curso em 1995 na Escola de Arquitectura de Paris-Villemin. Em 1996 surge como um dos fundadores do Laboratório de Arquitectura, Performance e Sabotagem (LAPS) e, no ano seguinte, do multidisciplinar atelier Fauteil Vert de Paris. De 1998 a 2001 integra a direcção da NúmeroMagazine em conjunto com Dinis Guarda. Em 2001, ganha o Prémio de Arte Pública Tabaqueira, pelo seu trabalho "Stair Way to Heaven - Espaço Público para Uso Individual" a implantar no futuro Jardim dos Aromas da Praça Central de Castelo Branco, zona actualmente em reconstrução no âmbito do Programa Polis. No mesmo ano, forma com Pascal Mazoyer o atelier Bureau des Mésarchitectures; desde então, divide a sua actividade profissional entre Lisboa e Paris.


“O Bureau des Mésarchitectures define-se como um grupo de reflexão,
uma organização multicéfala que reivindica o diálogo como ponto de partida

para toda a arquitectura.

O Bureau interessa-se, prioritariamente, por situações complexas, tumultuosas,

logo que os modelos existentes se revelem inoperantes.

Entendemos colocar dispositivos de relações através de arquitecturas

mais dirigidas à acção do que à contemplação.”

(in www.mesarchitecture.com)

O Bureau des Mésarchitecture é premiado nos Albuns da la Jeune Architecture 2001-2002, alcançando a projecção internacional na Expo’02, na Suíça, com o Teatro Flutuante Arteplage Mobile. Na exposição nacional suíça, o projecto apresentado não pretende rivalizar com os edifícios mais mediáticos, como o Monólito de Jean Nouvel ou a Nuvem da dupla Diller & Scofidio.


“...o projecto apresentado propôs transformar um batelão desossado numa plataforma que suporta um contentor transformável e desmontável. O equipamento é pensado numa lógica flexível que permite usos variados. No espaço exíguo da superfície flutuante juntam-se um bar, uma sala polifuncional e espaços exteriores. Braços móveis dotados de projectores evocam referências industriais e acrescentam movimento à leitura visual do conjunto. O universo dos transformers da animação contemporânea combina-se com sugestões programáticas provenientes da herança do
punk. Durante a exposição, a equipa deste objecto estranho e autónomo propõe massagens, teatro, sopas populares, instalações, projecções, naturismo, dubbing e banhos de meia-noite...”

(in Influx, arquitectura portuguesa recente)


Marie-Hélène Fabre, colaboradora no projecto a concurso à Embaixada de Portugal em Berlim, 1998, afirma que Fiúza Faustino nutre o desejo de ser um agente provocador. O desejo consequente de integrar à partida a disfunção como vector produtor do espaço. Neste espírito, Fiúza Faustino participa em 2000 na 7ª Bienal de Arquitectura de Veneza. “Menos Estética, Mais Ética”, o tema. Apresenta um projecto irónico e desconcertante. “Body in Transit”, um contentor moldado para o transporte do corpo de um imigrante ilegal.


POSIÇÃO: A cidade é um espaço de acumulação de riquezas mas também de concentração de pobreza. Atrai pela sua prosperidade, mas enquanto alguns voam confortavelmente de metrópole em metrópole para tratar dos seus negócios, outros estão a atingir seu destino ao preço da sua vida, escondidos nos paióis ou nos porões. Pouco importa o meio, nada é mais importante para eles que o ponto de chegada, miragem prometedora , ícone de um mundo melhor.

PERGUNTA:
Que atitude pode adoptar um arquitecto num tal contexto, com qual ética e com qual estética?

RESPOSTA:
Um container para indivíduo, arquitectura corporal, artefacto da reflexão. Materialização de uma interrogação sobre o papel do arquitecto na sociedade e meio para se projectar numa condição a denunciar. A oposição ética/estética, responde-se por outra entre acção e retórica.”

(in convite da NúmeroMagazine para a 7ª Bienal de Veneza)


O projecto incorpora mais tarde a exposição permanente de Arte Contemporânea do Centro Georges Pompidou em Paris.

A actividade de Fiúza Faustino tem sido desenvolvida através de uma reflexão sobre o Corpo. Entendimento do espaço enquanto experiência física e corporal. No cruzamento de várias áreas de acção experimental - exposições, video art, performances, instalações, artigos de opinião, conferências e publicações - a arquitectura surge como o elemento dorsal capaz de intensificar as situações na sua dimensão física, cultural, urbana e política.


“Não há pensamento humano sem o Corpo. Nesta era dos novos media e das redes de comunicação, devemos reclamar a nossa consciência do mundo físico. A arquitectura pode constituir um instrumento que provoque os nossos sentidos e desenvolva a nossa consciência da realidade que tende a desaparecer sob a pressão da hiper-rapidez e da overdose de informação. EXPERIENCIAR A FRAGILIDADE...”

(texto escrito por Fiúza Faustino para a 7ª Bienal de Veneza)



O dia da entrevista

Nesse mesmo dia, na Biblioteca de Serralves, uma Mesa Redonda moderada por Hans-Ulrich Obrist. Arata Isozaki, Siza Vieira e Fiúza Faustino, o painel de oradores.

A propósito do projecto “Electric Labyrinth” e dos episódios de Maio de 68, Isozaki declara ‘Utopia is dead’.
Neste preciso momento, na Mesa Redonda, Siza Vieira mantém um sereno silêncio e Fiúza Faustino esboça um sorriso.

Why did Didier smile?

As reacções de Siza e de Fiúza Faustino à declaração de Isozaki podem ser melhor compreendidas com a leitura do texto “Crítica de Arquitectura em Portugal: Conflito e Dissipação” de Jorge Figueira, in Jornal Arquitectos 211. Fala-se de uma dualidade presente na postura e na crítica perante o mundo contemporâneo. Jorge Figueira conclui que “Body in Transit, de Didier Fiúza Faustino, cruzando a componente artística com uma motivação livremente arquitectónica, pode ser o objecto fetiche da crítica ‘dissipadora’.”

Fiúza Faustino reivindica a emergência do papel cívico e político do arquitecto na sociedade; o arquitecto, ao desenvolver uma consciência da problemática social do seu tempo, ganha vantagem. Actua na esfera da provocação social a partir da linguagem arquitectónica. Produz manifestos de forte densidade ideológica. Afronta a problemática contraditória da estrutura política actual. Recorre inteligentemente à ironia para denunciar a hipocrisia do sistema.

Quando lhe perguntam se possui um background socialista, responde não. Mas o facto de viver a realidade francesa, a oposição centre/banlieu, a explosiva e tensa questão da emigração, o crescendo da xenofobia, a experiência da deslocação, resultou numa sedimentação de uma carga ideológica ao longo do seu percurso.

A leitura de uma assumida influência construtivista na procura do movimento e do mecanicismo, por exemplo nos braços móveis do “Teatro Flutuante”, sugere o início de um trabalho na esfera da radicalidade da experimentação plástica, formal e compositiva do construtivismo russo.

Se na União Soviética da Pós-Primeira Guerra Mundial essa experimentação é utopicamente colocada ao serviço da Revolução Bolchevique, perguntamos: o trabalho de Fiúza Faustino (e de outros), na União Europeia Pós-11 de Setembro, é colocado ao serviço de que Revolução


[entrevista a Didier Fiúza Faustino]

Vamos falar da tua relação com a arte enquanto arquitecto. As tuas obras são expostas em museus, muitas delas são feitas para esse fim. Como lidas com essa ambiguidade?
A situação é simples: ou tens clientes e constróis, ou não tens clientes e fazes pesquisa, projectos teóricos, projectos de papel. Depois é preciso encontrar veículos para mostrar esses projectos, esse pensamento. Todos os meios são bons para falar de arquitectura. O museu é um bom sítio para falar de arquitectura porque é quase uma situação clínica onde se podem mostrar projectos fora do contexto.
Críticos de arte viram os meus primeiros projectos e começaram a escrever em revistas sobre esses trabalhos. Aqui começa a ambiguidade: é muito mais fácil para as pessoas te catalogarem como artista; a dificuldade é defenderes a tua condição de arquitecto. Tenho um atelier, tenho pessoas a trabalhar comigo, pratico uma economia de arquitectura, sou arquitecto!
Todos os arquitectos, quando reconhecidos, começam a ter exposições. Talvez não sejam exposições especificamente dentro de museus de arte contemporânea, mas a arte contemporânea está cada vez mais interessada pelo que fazem os arquitectos. Cada vez há menos fronteiras e mais porosidade.
De facto, não temos a mesma maneira de pensar de um artista; eu trabalho sempre com problemáticas de arquitectura envolvendo uma espécie de alfabeto à volta da disciplina.

A
s obras presentes em museus pretendem ser manifestos, agentes provocadores da sociedade?
Isso de facto tem a ver com o que estávamos a falar há pouco com um dos assistentes do Rem Koolhaas, quando ele me perguntava "Tens um background socialista?" Não, mas creio que os arquitectos vão voltar a ter um papel predominante na sociedade, no sentido em que são pessoas que pensam a política social e não apenas designers de caixas.Hoje à noite, por exemplo, há uma conversa com o Siza e o Isozaki. Num certo momento das suas carreiras, parece-me que eles foram, muito mais do que autores, actores da situação política e social numa geografia muito específica. Parece-me que hoje já não é necessário falarmos de arquitectos se estes só servirem para construir edifícios. Os construtores sabem fazê-lo muito bem.

Hoje temos a oportunidade de voltar a ter um papel central na sociedade, não o papel de construtor, de mestre de obras no sentido clássico, mas o de actores participativos da nossa sociedade.


A questão anterior assentava um pouco no projecto do contentor que está no Pompidou, um objecto que exposto como projecto arquitectónico funciona também enquanto provocação social...

Quando fiz esse projecto em 2000 para a Bienal de Veneza o lema era “Menos Estética, Mais Ética.” Tinha duas hipóteses: ou pegava num projecto meu e dizia que ele estava envolvido nessa problemática, algo que o arquitecto sabe muito bem fazer -contextualizar um projecto para lhe dar um outro sentido, isto enquanto ele é teórico -, ou produzia um projecto novo.
A noção de minimum existenz (ver Minimal Dwelling Project, Albrecht Heubner) e a arquitectura enquanto segunda pele, interessavam-me muito; também a questão da emigração a que estou muito ligado. Sou português, estou em França, tenho consciência de toda essa problemática tão actual e, pergunto-me então: serei capaz? Suis je capable de produire une pensée d’architecture pour une situation donnée?
Inicialmente fizemos uma série de experiências; trabalhámos com um scanner 3D para tentar fazer uma cartografia o mais aproximada possível dum corpo, numa situação onde o movimento do corpo - a situação mais elementar para produzir arquitectura -, não existiria. Fizemos então esta produção de experiências à volta de vrios scans 3D de corpos. Apercebemo-nos de como um corpo é sempre movimento (mesmo morto, o cabelo, as unhas, continuam a crescer), a cartografia objectiva do corpo era impossível.
A partir daí alteram-se as minhas prioridades e da hipótese de produzir uma segunda pele, passei a envolver-me mais na problemática da clandestinidade: como é que numa situação de alto risco entre dois destinos, um de ida e outro de chegada, numa situação de perigo total por causa de um ideal, se poderia proteger um corpo, uma vida?
Tinha que encontrar companhias que produzissem caixas de transporte de objectos valiosos. Entrei em contacto com uma companhia que fabrica contentores para mísseis da armada francesa; disse-lhes que queria fazer um contentor para transportar um corpo, para proteger uma vida. Ficaram sensíveis ao meu discurso, “normalmente fazemos contentores que têm coisas que matam, que destroem vidas e você pede-nos para trabalhar em algo completamente oposto a isso; estamos a gostar da aposta, vamos trabalhar!”

A partir daí surgiu um desenho muito simples, uma posição quase fetal, uma situação onde o corpo já não é importante, só o espírito.
Gosto muito de uma frase da Laurie Anderson, “I feel my body like driving a car”. Body in Transit. Acrescentei: o valor da mercadoria, uma vida; mercadoria frágil. O caso do contentor é isso, o corpo já não é importante, o que conta é o ser humano. É este jogo todo sobre o corpo clandestino, as várias posturas, os vários momentos que fazem o programa do projecto. Chamei-lhe E é aí que começa a crítica da nossa sociedade, que o projecto de arquitectura se torna uma produção crítica; estamos numa sociedade hipócrita onde só se fala do corpo individual, mas o que existe de facto é o corpo colectivo.

E a quebra das fronteiras, o encontro de realidades tão diferentes, o mundo global, como é produzir e construir nesta condição?

É preciso encontrar brechas para a produção poder fazer sentido, qualquer que seja o sítio. O que mudou de há dez anos para cá? Talvez a possibilidade de mostrar um trabalho para lá das fronteiras, fora do seu contexto imediato. Hoje as pessoas deslocam-se, o teu trabalho desloca-se, vive-se uma situação de cruzamento intenso. A questão da emigração nem se deve colocar. O problema é político.

O projecto “One Square Meter House” insere-se neste contexto...

Sim, é uma casa em qualquer sítio e mais uma vez uma crítica a esta sociedade.


E a pessoa que vai habitar esta casa permanece um indivíduo solitário?
A “One Square Meter House” é uma crítica óbvia da nossa sociedade individual, narcisista e egoísta. A unidade mínima do terreno, 1,00
m2, vai servir de base para construir uma casa. Pode ser construída em qualquer lugar, é sempre a mesma, o que muda é o preço do terreno.
O corpo colectivo vive, hoje, uma espécie de ilusão: o fascínio pelo skyscraper que está a voltar à nossa sociedade é assumido colectivamente. Nunca se fala em sonhos de uma só pessoa, mas o colectivo acaba sempre por ser conduzido por forças individuais, como o caso das multinacionais. Há sempre o dono de uma companhia que paga para ter o sexo maior da terra. Arrogância. Como duplo crítico, denuncio esta individualidade. Identifico uma pessoa por detrás deste colectivo. Mostro como toda a história da arquitectura dos skyscrapers é sempre uma história individual.


E achas que
esta torre de um metro quadrado pode vir a ser construída e comercializada por uma empresa?
Não. É a mesma questão do contentor; são exemplos. Os museus, as exposições, permitem-me uma grande liberdade. Não tenho capacidade económica para produzir objectos teóricos por mim próprio e os museus são uma espécie de alternativa que me permite desenvolver esses projectos. Estamos no campo da teoria, são sempre situações de pesquisa. Fazer a “One Square Meter House” não teve como objectivo a procura de um cliente que pudesse financiar o projecto. O atelier não se submete a uma lógica mercantilista.

Talvez a condição de luso-francês influencie, mas os projectos que vemos estão sempre muito relacionados com a questão da deslocação.
Sempre gostei de trabalhar em situações onde o contexto era mais social ou político do que propriamente arquitectónico ou urbano. Interessa-me a questão do non lieu.

A internet, por exemplo, é um não lugar? No Mutations (Much ado about nothing, in Mutations/Urban Rumors) falas do silêncio dos dados informáticos...
Pode ser. Mas tenho suficiente matéria fora do virtual para estar obcecado por isso. O que me interessa desse universo é mais o fluxo subversivo, as coisas que se transformam, os acasos. O silêncio. Algo que entra em tua casa e não sabes de onde vem.

Esse silêncio não será estar simultaneamente só e diante desse universo todo?

Silêncio não é não comunicar. Pode-se comunicar através do silêncio. Quando escrevi esse texto sobre o silêncio quis abordar a questão da intimidade do indivíduo. Como chegas à intimidade de um indivíduo pela via do silêncio. O interessante na internet é o rumor. As informações, o eco do mundo que sorrateiramente acorda na tua intimidade. Interessante esta erupção pela via do silêncio.

O tema para a tua postura: “vers une architecture d’action”?
Gosto. É importante. É um tema sobre o qual gostaria de fazer uma conferência. É fundamental guardar uma alma de puto, querer descobrir, ser generoso.
Quando falas com o Arata Isosaki, de 75 anos, sentes que não tem idade. O Hans Ulrich Obrist, ao fazer uma entrevista ao Manoel de Oliveira, ficou fascinado com o facto de ele ter estado a falar horas dos sonhos, das pessoas de quem gosta...
Action, no sentido em que fazer um projecto não é uma coisa inocente; tem sempre implicações. Produzir arquitectura e ao mesmo tempo ter a generosidade e envolvimento nos projectos é uma coisa que se perde. O mais precioso numa produção de arquitectura é também o mais frágil. É genial não deixar escapar isso.

Faz sentido falar de uma identidade nacional?
Não. Isso é uma ilusão. É sempre o mesmo problema, ou seja, quando chegas ao poder queres guardá-lo e a partir daí o que fazes é tentar encontrar uns modelos. É o que se chama l’academisme. Precisas de modelos para perpetuar a tua identidade; mas isso é perigoso. O que é preciso é diversidade. Acho que é uma grande treta falar de identidade nacional. É o argumento das pessoas que estão no poder, quem quer que sejam e penso que o Siza se encontra para lá dessa questão.

O Siza ainda é uma grande sombra?
Não. A sombra são os outros que estão à volta e que o usam como modelo para atingir o poder. Penso que o Siza preferiria ser singular e não ter vinte e cinco pessoas a copiá-lo. E depois há outra problemática que é a temporalidade. A temporalidade na arquitectura não é uma temporalidade rápida. Podes usar modelos no início da tua carreira para começar a constituir um corpus, e depois te poderes libertar deles.
Tout réside dans la quête de l’indépendance…

E as tuas referências?
Sinto-me muito à vontade com as minhas referências.
Se quiseres, a “One Square Meter House” é completamente metabolista; também construtivista. Mas é uma via diferente. Ter referências é fundamental.

Viagens, o tema deste número...
São estímulos, o contacto com outros corpos, a instabilidade. Uma instabilidade produtiva, no sentido em que acabas por estar sempre numa situação de fragilidade. E a fragilidade exalta a criação.


Porto, 17 de Novembro, 2003


© Joana Couceiro + Marta Pedro + Pedro Baía

in Revista NU #15 Viagens,
Dezembro 2003