
Nas últimas semanas, temos assistido a um curioso fenómeno que considero particularmente interessante. No fim do conturbado ano de 2004, a Alta Universitária, núcleo central da Universidade de Coimbra, foi mandada pintar de branco por ordens da Reitoria. No entanto, esta pintura não integra nenhum plano concertado entre a Câmara Municipal e a Universidade no sentido de submeter o conjunto arquitectónico imposto pelo Estado Novo a uma candidatura a património mundial.
O que vimos na Alta foi algo completamente diferente. As ordens ditadas pelo Gabinete Técnico da Reitoria aos funcionários munidos de um balde de tinta branca e de um rolo eram simples: apagar os “graffitis” pintados por toda a Universidade. A decisão é legítima, pois não se deve escrever, nem afixar cartazes, nas paredes dos edifícios. Assim, a partir das ordens da Reitoria, a universidade foi reunindo uma colecção de rectângulos brancos, pintados nas antigas paredes das faculdades. Rectângulos perfeitos, com os ângulos de 90º perfeitamente definidos. Rectângulos de diferentes dimensões e proporções. Pinturas brancas por cima de “graffitis” realizados por estudantes de várias gerações. “Graffitis” que surgiram a partir das mais variadas motivações – desde os contestatários, os portadores de mensagens políticas, até aos desabafos, às declarações de amor. De um momento para o outro, todos estes registos, que faziam parte de uma memória colectiva universitária, desapareceram. Sem piedade pelos escritos mais antigos. Todos foram apagados, dos mais inofensivos aos mais subversivos.
As fachadas dos edifícios da Universidade apresentam hoje uma série de composições abstractas de rectângulos brancos. Os turistas que todos os dias sobem à Alta não percebem a dimensão deste curioso fenómeno. Não percebem o que tudo isto representa. Qual terá sido a verdadeira intenção da Reitoria? Apagar as mensagens incómodas? Sublinhar e destacar os vários locais que serviram de suporte aos marginais? A pintura recta, abstracta, cirurgicamente executada, pretende afirmar algo. Porque o branco pintado nas antigas pedras do Regime revela uma pureza de significado sublime. Porque o branco pintado por uma dita instituição livre e democrática contrasta orgulhosamente com a cor amarelecida pelo tempo das paredes erguidas durante o regime autoritário fascista.
No dia 9 de Janeiro, ao passar pela Alta, reparo que os rectângulos brancos tinham sido alvo de mais uma transgressão à ordem pública – novos “graffitis” pintados no novo enquadramento oferecido pela Reitoria. Era inevitável. Preocupante seria se na Universidade não houvesse um único estudante que riscasse aqueles rectângulos. A provocação da Reitoria era óbvia. A pintura branca tapava as mensagens, mas não as apagava, permanecendo assim o registo de uma intenção clara. As novas mensagens grafitadas também eram particularmente provocatórias: frases inocentes – “Paz na Terra”, “Liberdade de Expressão”; ou com um certo sentido de humor – “Telas brancas by Seabra Santos”, “Feliz 2005 Sr. Reitor”; entre outras. Notava-se que a acção tinha sido colectiva, organizada. Teria sido impossível para um só estudante pintar a área imensa de tinta branca. As diferentes caligrafias e cores de tinta não deixavam margem para dúvidas.
No dia seguinte, numa segunda-feira normal de vida universitária, ao passar de novo pela Alta, deparo-me outra vez com o branco imaculado. Não havia um único vestígio daquelas frases que tinha visto. Os rectângulos tinham sido pintados novamente. Pergunto-me se terei sonhado. Talvez.
Então, junto um outro sonho, este sim, sonho verdadeiro, daqueles de ficção que nos alimentam o imaginário e nos mantêm adormecidos: um dia de manhã, volto a chegar à Alta e surpreendo-me – nas paredes da Universidade, encontro todo o conjunto de rectângulos brancos pintado de preto. De preto. Sem qualquer mensagem. Simplesmente, uma mudança de cor. Assinado, “Malevich”.
Ao longo dos anos, as velhas paredes das faculdades enriquecem-se com vários níveis de significado, tornando-se verdadeiros palimpsestos. Um dia, mais tarde, talvez venham arqueólogos à velha Universidade em ruínas, investigar o que se terá passado. Raspando aqueles curiosos rectângulos, descobrirão diferentes cores, histórias incríveis, de sonhos e conflitos. E regressarão a casa com algo insubstituível – o registo de uma história cristalizada nas ruínas daquela Universidade de que tanto ouviram falar.
Por tudo isto, pensei escrever esta história numa das esquinas da Biblioteca Geral, mas cheguei à conclusão que seria mais sensato registá-la nesta folha branca.
Por tudo isto, obrigado Senhor Reitor, por nos manter a chama revolucionária acesa.
© Pedro Baía
in O Jornal Universitário A Cabra; Diário de Coimbra; As Beiras; Janeiro 2005
O que vimos na Alta foi algo completamente diferente. As ordens ditadas pelo Gabinete Técnico da Reitoria aos funcionários munidos de um balde de tinta branca e de um rolo eram simples: apagar os “graffitis” pintados por toda a Universidade. A decisão é legítima, pois não se deve escrever, nem afixar cartazes, nas paredes dos edifícios. Assim, a partir das ordens da Reitoria, a universidade foi reunindo uma colecção de rectângulos brancos, pintados nas antigas paredes das faculdades. Rectângulos perfeitos, com os ângulos de 90º perfeitamente definidos. Rectângulos de diferentes dimensões e proporções. Pinturas brancas por cima de “graffitis” realizados por estudantes de várias gerações. “Graffitis” que surgiram a partir das mais variadas motivações – desde os contestatários, os portadores de mensagens políticas, até aos desabafos, às declarações de amor. De um momento para o outro, todos estes registos, que faziam parte de uma memória colectiva universitária, desapareceram. Sem piedade pelos escritos mais antigos. Todos foram apagados, dos mais inofensivos aos mais subversivos.
As fachadas dos edifícios da Universidade apresentam hoje uma série de composições abstractas de rectângulos brancos. Os turistas que todos os dias sobem à Alta não percebem a dimensão deste curioso fenómeno. Não percebem o que tudo isto representa. Qual terá sido a verdadeira intenção da Reitoria? Apagar as mensagens incómodas? Sublinhar e destacar os vários locais que serviram de suporte aos marginais? A pintura recta, abstracta, cirurgicamente executada, pretende afirmar algo. Porque o branco pintado nas antigas pedras do Regime revela uma pureza de significado sublime. Porque o branco pintado por uma dita instituição livre e democrática contrasta orgulhosamente com a cor amarelecida pelo tempo das paredes erguidas durante o regime autoritário fascista.
No dia 9 de Janeiro, ao passar pela Alta, reparo que os rectângulos brancos tinham sido alvo de mais uma transgressão à ordem pública – novos “graffitis” pintados no novo enquadramento oferecido pela Reitoria. Era inevitável. Preocupante seria se na Universidade não houvesse um único estudante que riscasse aqueles rectângulos. A provocação da Reitoria era óbvia. A pintura branca tapava as mensagens, mas não as apagava, permanecendo assim o registo de uma intenção clara. As novas mensagens grafitadas também eram particularmente provocatórias: frases inocentes – “Paz na Terra”, “Liberdade de Expressão”; ou com um certo sentido de humor – “Telas brancas by Seabra Santos”, “Feliz 2005 Sr. Reitor”; entre outras. Notava-se que a acção tinha sido colectiva, organizada. Teria sido impossível para um só estudante pintar a área imensa de tinta branca. As diferentes caligrafias e cores de tinta não deixavam margem para dúvidas.
No dia seguinte, numa segunda-feira normal de vida universitária, ao passar de novo pela Alta, deparo-me outra vez com o branco imaculado. Não havia um único vestígio daquelas frases que tinha visto. Os rectângulos tinham sido pintados novamente. Pergunto-me se terei sonhado. Talvez.
Então, junto um outro sonho, este sim, sonho verdadeiro, daqueles de ficção que nos alimentam o imaginário e nos mantêm adormecidos: um dia de manhã, volto a chegar à Alta e surpreendo-me – nas paredes da Universidade, encontro todo o conjunto de rectângulos brancos pintado de preto. De preto. Sem qualquer mensagem. Simplesmente, uma mudança de cor. Assinado, “Malevich”.
Ao longo dos anos, as velhas paredes das faculdades enriquecem-se com vários níveis de significado, tornando-se verdadeiros palimpsestos. Um dia, mais tarde, talvez venham arqueólogos à velha Universidade em ruínas, investigar o que se terá passado. Raspando aqueles curiosos rectângulos, descobrirão diferentes cores, histórias incríveis, de sonhos e conflitos. E regressarão a casa com algo insubstituível – o registo de uma história cristalizada nas ruínas daquela Universidade de que tanto ouviram falar.
Por tudo isto, pensei escrever esta história numa das esquinas da Biblioteca Geral, mas cheguei à conclusão que seria mais sensato registá-la nesta folha branca.
Por tudo isto, obrigado Senhor Reitor, por nos manter a chama revolucionária acesa.
© Pedro Baía
in O Jornal Universitário A Cabra; Diário de Coimbra; As Beiras; Janeiro 2005