Cartografia da Trienal: Três Exposições



Na primeira edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa, o Pavilhão de Portugal projectado por Álvaro Siza Vieira assume, finalmente, um papel central e estratégico, acolhendo a sede do evento no ano da Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia. Sendo um dos quatro pólos da Trienal, o Pavilhão recebe um conjunto de seis exposições convidando a cidade, e o país, a reencontrar o interior do edifício e as memórias da Expo98.

Sob a pala de Siza, somos recebidos pelo intenso “azul Yves Klein” que desenha o percurso expositivo idealizado por Ricardo Bak Gordon. Um azul já anunciado no Teatro Camões, projecto de Manuel Salgado para a Expo98, onde decorreu, nos primeiros dias da Trienal, a Conferência Internacional de Arquitectura – O Coração da Cidade. Cá fora, o azul convida a atravessar as fronteiras de um território plural que reflecte a alteridade da arquitectura contemporânea.

Países
Estamos algures no Mundo. Eslovénia, Irlanda, Japão, Alemanha, Holanda, França, Espanha, Canadá, México, China, Chile e Moçambique. A “Exposição Países”, comissariada por José Mateus e Luís Tavares Pereira, é marcada por uma ampla heterogeneidade. Dado o próprio contexto específico de cada país, o conteúdo das várias exposições, da responsabilidade do respectivo Comissário Nacional, revela-se muito diverso.
Enquanto que a mostra de Espanha desilude, não correspondendo à actual vitalidade da arquitectura espanhola, a francesa surpreende, ao pretender “apresentar exclusivamente arquitecturas capazes de encantar a realidade”[1]
.

As mostras da Irlanda e Holanda são, talvez, as que melhor comunicam a produção arquitectónica desenvolvida pelos seus autores. A irlandesa, comissariada por Peter Cody e Peter Carrol, apresenta um delicado layout expositivo. O projecto da Holanda, que ficou a cargo de ReD Research + Design, a convite do comissário Hans Ibelings, apresenta como fio condutor dos vários trabalhos, uma polyline quebrada, fechada, composta por 197 perfis de alumínio dispostos numa malha ortogonal de 1,2x1,2x1,2m. A extrema densidade da sala cria uma lógica de ocupação do espaço que responde ao conceito exposto das “Impulsões Urbanas”[2]
.

Igualmente densa e co
m algum sentido de humor, a exuberância da mostra japonesa ocupa todas as superfícies da sala, incluindo as cabeças dos visitantes com chapéus origami feitos, na própria exposição, com o desdobrável de apresentação do país. Ao lado, a mostra alemã encontra-se praticamente vazia.

Caixa Negra
Por motivos orçamentais e de agenda, a exposição da Alemanha – “O Vazio Urbano como Caixa Negra”, comissariada por Gerit Confurius – apresenta-se, ao contrário dos restantes países, despida de maquetas e painéis. Colocada entre os densos ambientes expositivos do Japão e da Holanda, a mostra alemã dá assim origem a um particular acontecimento no território da exposição – o vazio.

Colocado a meio da sala rectangular, um muro branco ocupa o corredor de passagem entre as mostras japonesa e holandesa. Uma sequência de imagens com vários projectos para Berlim, Colónia e Hamburgo, intercalada por extractos do texto de Confurius, é projectada em cada uma das faces deste muro. Nos topos da sala, afastados do movimento das sombras dos visitantes, encontramos um colchão encostado à parede. Aqui o azul Klein revela-se ainda mais intenso. Aqui, enquanto se assiste à projecção, respiramos, descansamos, reflectimos.

Sentado num destes colchões encontrei Gerrit Confurius. Aqui me falou dos espaços expectantes de Berlim, Colónia e Hamburgo, dos vazios urbanos enquanto “caixas negras”, enquanto mecanismos capazes de captar o zeitgeist e assim registar os anseios, contradições e medos do nosso tempo. Segundo Confurius, “os vazios urbanos são interrupções no tecido da cidade que revelam mudanças críticas. Nos projectos para estes locais delicados, não se trata apenas de cumprir o programa de um edifício em particular. É nesses projectos que a cidade se define a si própria. Nós esperamos que os projectos de arquitectura sejam um manifesto construído daquilo que uma cidade deve ser, hoje e no futuro.”[3]


Da estratégia traçada pelo comissário da Alemanha, lê-se uma vontade de alargar a leitura do fenómeno dos vazios urbanos para além do paradigmático exemplo berlinense. Nesse sentido, a mostra alemã evidencia o debate provocado pela ópera de Colónia, no questionamento da validade da memória da arquitectura dos anos 50 e 60. Ou, no caso de Hamburgo, explora o conflito entre a cidade e o processo de urbanização/integração cultural do território portuário, através da projecção de imagens do projecto de Herzog & de Meuron para uma Praça e Auditório na cobertura do armazém Harbour-City, símbolo desta operação de requalificação.

Contudo, Berlim, cidade palimpsesto, poderia ter desencadeado uma reflexão muito mais profunda no contexto global da Trienal, pela mítica relação que estabelece com os vazios urbanos. “Berlin as palimpsest, a disparate city-text that is being rewritten while earlier texts are preserved, traces restored, erasures documented – all of this producing a complex web of historical markers that point to the continuing heterogeneous life of a vital city ambivalent about both its built past and its urban future.” [4]


Portugal
Depois do atravessamento dos países que desenham a cartografia da primeira exposição, um corredor devolve-nos ao território português. Ao fundo, uma televisão com a palavra ARQUITECTURA inscrita no inesquecível círculo da Eurovisão, marca o início da exposição “Europa – Arquitectura Portuguesa em Emissão”, a mais arriscada proposta expositiva da Trienal. Desde logo, é denunciado o conceito expositivo traçado pelos comissários Jorge Figueira e Nuno Grande – expor a arquitectura portuguesa através do imaginário televisivo.


A dupla pretendeu ir além da convencional exposição de arquitectura feita em Portugal que, segundo os comissários, costuma seguir dois modelos: o que reivindica a importância da arquitectura como “missão cívica” e o que apresenta a arquitectura pela via documental, “enfatizando a tradição Belas Artes”. [5]


Com outros propósitos, Jorge Figueira e Nuno Grande ambicionam expor, mais do que uma exposição, uma ideia de exposição. Um outro modo de comunicar arquitectura, onde as relações estabelecidas com a moda, com a música e com as inovações tecnológicas, emergem no espaço expositivo. O desafio passa, então, por inscrever a arquitectura na nossa cultura visual, no nosso quotidiano, na nossa sociedade. Finalmente, tornar a arquitectura cosa reale.

De acordo com este programa conceptual, a primeira secção da exposição, intitulada Eurovisão, cobre o período entre 1956 (ano em que se iniciaram as emissões televisivas nacionais) e 1986 (ano da adesão de Portugal à então Comunidade Económica Europeia). Onze fotografias, a preto e branco, de edifícios emblemáticos, convivem com reproduções laranja das imagens publicitárias que ocupavam as páginas das revistas de arquitectura de época. Sobre o fundo amarelo da parede e ao ritmo das várias participações portuguesas no Festival da Canção, procura-se contar a história de como a arquitectura portuguesa, num contexto periférico, acompanhou, interpretou, assimilou e reavaliou o processo europeu de debate e revisão das ideias fundadoras do Movimento Moderno.

Na segunda secção, Euronews, que cobre o período entre 1986 e 2006, a arquitectura, segundo os comissários, é apresentada “sem uma lógica de tendência” [6]
, ”sem filtro, nem ordem, como pura sedução, imagens sobre imagens, um ‘agora’ sublinhado pela transmissão em tempo real, em dois grandes ecrãs, do canal televisivo europeu”[7]. Em real time, apresentam-se 16 obras recentes que evidenciam a afirmação da arquitectura portuguesa através da sua difusão geográfica. Num plano internacional, há projectos em Barcelona, Porto Alegre, Lovaina, Macau, Poitiers. Como também há, num plano nacional, num outro Portugal que despertou com os fundos comunitários, projectos no Cartaxo, na Calheta, no Barreiro, em Almada, Guarda, Coimbra, Mourão, Palmela e Sines.

Nos painéis verticais, destacam-se os nomes das localidades onde as obras estão inseridas, em detrimento da indicação do autor do projecto. Esta revisão de hierarquia procura evidenciar uma nova geografia da arquitectura contemporânea portuguesa, disseminada para além dos tradicionais centros Lisboa e Porto.

Na transição entre as duas secções, a convite dos comissários, surge no ecrã o surpreendente documentário “Arquitectura de Peso”. Um filme “muralista” de Edgar Pêra, carregado de ironia, sobre os quatro grandes projectos portugueses do virar do século – CCB, Expo98, Euro2004 e Casa da Música. A voz de Nel Monteiro, “cantor de intervenção popular”, vai denunciando, ao longo do documentário, que “a Expo98 e o CCB são projectos que não combinam com a miséria que o país tem”. Entre sons de derrapagens e reportagens da época, Nel Monteiro, ou melhor, Edgar Pêra, evoca na Trienal as “vozes do povo”. Num outro registo, quatro críticos – Luis Fernández-Galiano, Paulo Pereira, Paulo Varela Gomes e João Lopes – são também convidados a contribuir com reflexões sobre o tema no catálogo da exposição.

Justo e pertinente, o comentário de Mark Wigley, durante a sua visita à Exposição, ao relacionar este projecto de comissariado com os trabalhos do Independent Group. Uma interessante analogia se pensarmos que o grupo britânico interdisciplinar, formado por artistas, fotógrafos, arquitectos e escritores desenvolveu, ao longo dos anos 50, um pensamento crítico enraízado na reflexão da cultura visual e urbana.

Após a Exposição “Europa – Arquitectura Portuguesa em Emissão”, talvez tenha chegado o momento de dessacralizar a arquitectura em Portugal. Estaríamos assim preparados para receber um terceiro momento. Pós-Eurovisão, pós-Euronews. Um momento onde seria possível, como na plataforma Google, navegar segundo as nossas motivações. Disponíveis ao inesperado. Assertivos na procura. Onde a passividade dá lugar a uma verdadeira acção. De confronto, cultural e ideológico. De partilha. Diferente da Eurovisão, porque hoje podemos escolher a música que queremos ouvir. Diferente da Euronews, porque hoje podemos escolher a informação que queremos saber.

Diálogos com Siza
Ouvimos os rumores que chegam do piso de cima. Subimos as escadas do Pavilhão e procuramos no edifício as vozes que conversam com Siza. A “Exposição Arquitectos Convidados”, comissariada por José Mateus e João Belo Rodeia, reuniu um conjunto de cinco percursos de arquitectos consagrados, “nascidos nos anos 50“, como Diller Scofidio + Renfro de Nova Iorque, João Luís Carrilho da Graça de Lisboa, Zaha Hadid de Londres, Mansilla+Tuñón de Madrid e Eduardo Souto de Moura do Porto.

Com esta exposição, os comissários lançam um olhar transversal aos cinco autores, uma tentativa de traçar um retrato, reflexo de uma geração nascida nos anos 50. Aos convidados foi proposto o desafio de conceberem o seu próprio espaço nas salas do Pavilhão de Portugal e idealizarem o conceito expositivo da sua mostra. A exposição também se podia ter intitulado “Diálogos com Álvaro Siza”, dada a omnipresença do arquitecto na linguagem do edifício.

Na intervenção de João Luís Carrilho da Graça pressente-se uma aproximação ao campo artístico. No edifício de Álvaro Siza, Carrilho apresenta uma instalação – uma sala negra com uma maqueta abstracta da Escola Superior de Música de Lisboa e um espelho de água rasante ao pavimento estabelecendo uma estreita relação com os vãos da varanda virada ao rio.

Zaha Hadid, por seu lado, intervém no campo espacial. Apropria-se do pé-direito da sala com uma série de tiras de vinil suspensas com imagens estampadas de vários projectos da sua autoria. Estas tiras, numa leitura especulativa, poderiam ser interpretadas como secções/cortes de uma estalactite formada no tecto da sala, constituindo, assim, um manifesto formal, uma reacção de Zaha ao espaço siziano.

Diller Scofidio + Renfro actuam mais no campo documental, optando por contar uma história. Numa sequência cronológica, apresentam a história do projecto do High Line, antiga estrutura ferroviária elevada, que se desenvolve ao longo de dois quilómetros, no tecido urbano de Manhattan. Na exposição, fascinados pelo desenrolar dos acontecimentos provocados pelo projecto, desenvolvido em parceria com os paisagistas da Field Operations, registam as várias reacções ao nível mediático, associativo e político.

Mansilla+Tuñón jogam claramente no campo conceptual apresentando, na exposição intitulada Playgrounds, uma colecção de catorze malas, de inspiração duchampiana, que reúne trabalhos realizados pelo escritório entre 1995 e 2005. Em Duchamp, nenhuma obra de arte é concebida para estar isolada. Todas as suas obras ecoam, reflectem e se projectam umas às outras. A referência às Boîtes-en-valise de Marcel Duchamp é, por isso, significativa, dado que as malas da dupla madrilena exploram a possível rede de relações que se estabelecem entre os vários projectos. Dentro desta atitude conceptual, trata-se, sobretudo, da valorização de um percurso traduzido em famílias de conceitos, imagens, experiências e reflexões que Mansilla+Tuñón transportam consigo ao longo da sua prática projectual.

Finalmente, Eduardo Souto Moura remata estes encontros com Siza através de uma abordagem dentro do campo disciplinar. Na exposição mais “conservadora” do conjunto, expõe o projecto da Torre do Burgo segundo os sistemas de representação próprios da prática da arquitectura. Deste modo, a meio da sala, junto à maqueta da torre, é possível a consulta do projecto de execução, um gesto que, nos dias de hoje, se revela portador de uma estranha radicalidade. Depois de uma breve leitura dos seus desenhos de execução, despedimo-nos deste vasto território expositivo com a mensagem do arquitecto.
No fundo, Souto Moura faz-nos acreditar que a arquitectura ainda é possível.


[1]
In texto de apresentação da exposição de França, pelos comissários Patrice Goulet e Brigitte Borsdorf.
[2]
In texto de apresentação da exposição da Holanda, pelo comissário Hans Ibelings.
[3]
In texto de apresentação da exposição da Alemanha, pelo comissário Gerrit Confurius.
[4]
Andreas Huyssen, in Present Pasts: Urban Palimpsests and the Politics of Memory, 2003, p.81.
[5]
In “Arquitectura Portuguesa – Para além do deslumbramento”, in Público, P2, pág.4-5, 31 de Maio 2007, por Jorge Figueira e Nuno Grande.
[6]
In “Arquitectos portugueses ao som do Festival da Canção”, in Público, Ípsilon, pág.12-14, 8 de Junho 2007, por Alexandra Prado Coelho.
[7]
In “Arquitectura Portuguesa – Para além do deslumbramento”, in Público, P2, pág.4-5, 31 de Maio 2007, por Jorge Figueira e Nuno Grande.

© Pedro Baía
in Arq./a - arquitectura e arte, Julho/Agosto 2007