nuances: os lugares da arquitectura



Damos início a um percurso reflexivo no território da arquitectura, em busca dos seus espaços, das suas nuances. Com o objectivo de interrogar a cultura arquitectónica, debruçamo-nos sobre o campo de acção do arquitecto e o significado da arquitectura nos dias de hoje.

Actualmente, a arquitectura assiste a uma redefinição do seu campo disciplinar. Existe hoje uma diluição dos limites disciplinares, onde as fronteiras das várias artes, cada vez mais permeáveis, provocam múltiplos e felizes encontros. Por vezes, tornam-se totalmente inesperados e desconcertantes, como a série de instalações concebidas por arquitectos, designers e artistas, abertas ao público, que têm vindo a ocupar os diferentes cantos da Casa da Música, de acordo com um programa que se estende ao longo do ano, num processo de renovação da imagem da instituição.

A actual abertura do campo da arquitectura deve-se também a um amadurecimento da disciplina na sociedade portuguesa. A um nível político, académico e cultural, a arquitectura foi traçando linhas de acção várias, no domínio da edificação e planeamento, no domínio da intervenção pública e cívica, no domínio da interpretação e reflexão da realidade, contribuindo assim para o reconhecimento da sua importância e pertinência.

A partir dos anos 80, com a entrada do discurso arquitectónico no domínio público, a arquitectura emerge na cena mediática – com a polémica das Amoreiras de Tomás Taveira, com a intervenção de Álvaro Siza Vieira no Chiado, até à Expo98, Porto2001, Euro2004, passando também pela Casa da Música e Metro do Porto.
Com o passar do tempo, as cidades vão assimilando na sua matriz os novos desenhos, as obras vão sendo habitadas, vivenciadas, ficando para trás todo o processo complexo que as trouxe do papel à luz do dia.

Para que serve a arquitectura? – pergunta que deu o título a um seminário que decorreu em Guimarães, em Outubro de 2006, organizado pela Dafne Editora e pelo Departamento Autónomo de Arquitectura da Universidade do Minho, coloca, de forma incisiva, a questão em torno do campo de actuação do arquitecto. E, a este nível, podemos identificar, à partida, duas vias, ou duas atitudes. Uma via disciplinar que actua dentro do campo da prática profissional e uma via que actua nos seus limites. Duas vias que, naturalmente, podem coexistir.

Na via disciplinar, o arquitecto presta serviços na área da arquitectura nos escritórios e ateliers, de acordo com os actos próprios da profissão. Segundo o Estatuto da Ordem dos Arquitectos, estes actos implicam “estudos, projectos, planos e actividades de consultoria, gestão e direcção de obras, planificação, coordenação e avalição, reportadas ao domínio da arquitectura, o qual abrange a edificação, o urbanismo, a concepção e desenho do quadro espacial da vida da população, visando a integração harmoniosa das actividades humanas no território, a valorização do património construído e do ambiente.

Nesta via, o arquitecto responde a encomendas públicas e privadas, através de projectos que percorrem várias escalas, várias fases, do estudo prévio ao acompanhamento de obra. Atento às necessidades do cliente, do programa proposto, das suas condicionantes espaciais, técnicas, legais, orçamentais, o arquitecto assume um papel de mediador entre as várias especialidades envolvidas no desenvolvimento do projecto. Neste processo, arquitectos atentos, conhecedores da história, da construção, da antropologia, da sociologia, da filosofia, seguem a liturgia própria da actividade, de acordo com os rituais próprios de comunicação e representação.

Na outra via, o arquitecto integra um conjunto heterogéneo que actua no mundo da arquitectura através das suas nuances. Situando o campo de acção nas margens, nos limites da disciplina, esta via pratica arquitectura num território difuso, permeável a contaminações de outros mundos, de outros modos de ver.
O percurso do arquitecto luso-francês Didier Fiúza Faustino ilustra bem este território. Reivindicando a emergência do papel cívico e político do arquitecto na sociedade, Didier actua na esfera da provocação social a partir da linguagem arquitectónica, denunciando a hipocrisia do sistema, do poder. Neste sentido, o projecto Body in Transit, exposto no museu Pompidou, um contentor que transporta um corpo clandestino, representa um manifesto crítico, onde a questão da emigração ilegal é subvertida e questionada com ironia, através do cruzamento da dimensão artística com a dimensão arquitectónica.

Disponível à permeabilidade, a arquitectura actua num campo de produção cultural. O olhar do arquitecto insere-se então num campo mais vasto, de leitura e interpretação crítica da condição contemporânea, na descodificação e compreensão dos fenómenos urbanos, das periferias, dos guetos multi-étnicos, dos centros históricos, das redes de mobilidade, etc.
A arquitectura enquanto disciplina, enraizada na sua matriz, surge então como território vasto, aberta a inúmeros devaneios periféricos pelas mais variadas artes e ciências, cinema, design, fotografia, literatura, cenografia, escultura...
Explorar os lugares da arquitectura, a partir das suas nuances, lança aqui um espaço cambiante, que tentará reflectir a topografia desta disciplina. Revela, finalmente, uma disponibilidade de diálogo, de intersecções e cruzamentos, um espaço outro de intervenção.


O processo complexo do Metro do Porto
Para ter uma noção do processo complexo que trouxe o projecto Metro do Porto do papel à luz do dia, sugiro uma visita ao Museu dos Transportes e Comunicações, na Alfândega do Porto, onde está patente a exposição Reunião de Obra – Metro do Porto 1994-2005, organizada pela Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos. A exposição permite perceber melhor o trabalho desenvolvido pelo escritório de Eduardo Souto Moura e das restantes equipas através de uma ampla amostra dos desenhos de execução das várias estações, das inúmeras fotografias da obra e das diversas maquetes de estudo.

A nova imagem da Casa da Música
Na ocasião da celebração do segundo aniversário da Casa da Música, num processo de renovação coordenado por Guta Moura Guedes, foi encomendado ao designer austríaco Stefan Sagmeister um projecto gráfico para a nova imagem da instituição. O novo logotipo cria assim um encontro interessante entre design e arquitectura, nascendo a partir da forma poliédrica do edifício desenhado por Rem Koolhaas. Através de um software, o logo apropria-se da forma do edifício transfigurando-se consoante o contexto da imagem de fundo do que se pretende divulgar.

Lançamento da Revista NU - Poder
Decorreu, no Clube Literário do Porto, a apresentação da nova Revista NU, subordinada ao tema Poder, com uma mesa-redonda composta pelos arquitectos Nuno Portas e Nuno Grande, onde se debateu o papel da arquitectura no processo do SAAL, Serviço de Apoio Ambulatório Local, na alteração radical das condições de alojamento dos moradores das “ilhas”. Com este número, a NU, editada pelo Núcleo de Estudantes do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra desde 2002, comemora cinco anos de vida. Confirmando o poder de sedução do mundo do design na arquitectura, a revista inclui uma conversa com Stefan Sagmeister.

© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 29 de Abril de 2007