
“As ruas de Buenos Aires
estão já dentro de mim.
Não as ávidas ruas,
incómodas pla turba e pela azáfama,
mas sim as ruas monótonas do bairro,
quase invisíveis de tão habituais,
enternecidas de penumbra e ocaso,
e as outras mais longe,
alheias, de árvores piedosas
onde austeras casinhas mal se aventuram,
enevoadas por imortais distâncias,
perdendo-se em recôndita visão
de céu e de planície. (...)”
(Jorge Luis Borges, in ‘Fervor de Buenos Aires’, 1923)
Buenos Aires é uma cidade espessa, carregada de histórias. Uma cidade que anseia ser lida. Como um livro. Acompanhados por Jorge Luis Borges (1899-1986), interpretamos gestos e olhares, percorremos esquinas e ruelas.
Descobrimos os ‘cafés notables’ de Buenos Aires do fim do século XIX, lugares mágicos de encontro e partilha onde o tempo parece não passar. Cafés protegidos pela cidade, considerados notáveis pela sua atmosfera, antiguidade, desenho arquitectónico e relevância local. Muitos destes cafés, La Perla de Caminito, El Hipopótamo, El Britânico, situam-se numa esquina, no canto de um quarteirão, na convergência de duas ruas, acumulando lugares. O famoso Café Tortoni, aberto desde 1858, vai mais longe – possibilita a passagem entre duas ruas paralelas, a entrada por uma rua e a saída por outra.
Numa das esquinas do centro financeiro de Buenos Aires, na intersecção de duas ruas fervilhantes, agitadas pela “turba e pela azáfama”, encontramos um edifício singular que nos fascina – o Banco Hipotecário Nacional, projectado entre 1958-1966, da autoria do arquitecto argentino Clorindo Testa (n.1923) juntamente com o colectivo SEPRA (Sanchez Elía, Peralta Ramos, Agostini). Constituindo um dos mais marcantes exemplos da arquitectura brutalista, o Banco apresenta uma exuberante exploração plástica do betão, numa delicada inserção urbana. Ampliado pelo acentuamento perspéctico das estreitas ruas, o betão da fachada do edifício destaca-se da envolvente através de uma sequência de lâminas recortadas cuja verticalidade suporta a cobertura do edifício.
O estudo em torno da definição do Brutalismo tem sido aprofundado por Ruth Verde Zein, arquitecta brasileira, autora da Tese de Doutoramento “A Arquitetura da Escola Paulista Brutalista 1953-1973” (2005). No seu estimulante trabalho de pesquisa, Verde Zein procura desmistificar conceitos, rever leituras, questionar pressupostos. Num texto publicado na secção Arquitextos do portal on-line Vitruvius <www.vitruvius.com.br>, propõe “verificar mais consistentemente em que consistem as diversas acepções do termo brutalismo, e decidir quais delas, se alguma, interessaria aproveitar ou descartar.“
Num contexto urbano completamente diferente, encontramos outro edifício da autoria de Clorindo Testa (com Francisco Bullrich e Alicia Cazzaniga) – a Biblioteca Nacional. Obra notável, projecto de 1962, segue a mesma linguagem já explorada no edifício bancário. Sendo construída numa área elevada de um amplo jardim, grande parte do acervo da Biblioteca situa-se enterrado, enquanto que um volume de planta rectangular, onde se localizam as salas de leitura, se solta do terreno apoiado em quatro vigorosos pilares em H. Dos pisos superiores da biblioteca, avista-se a cidade através de generosos vãos. Pelo contrário, o auditório encerra-se completamente à cidade, fechado sobre si próprio, exibindo orgulhosamente o betão bruto da sua forma curva suspensa entre pilares.
A Biblioteca Nacional, de que Borges foi director entre 1955 e 1973, apresenta contudo uma história curiosa. Devido à descoberta, durante as escavações, de vestígios de um gliptodonte, a obra foi suspensa, só tendo sido retomada em 1971. Depois, sofreu ainda mais atrasos, motivados por complicações com as empresas construtoras. Finalmente, fica concluída em 1992. Trinta anos passados desde o projecto de 1962, em plena década de 90, surge então uma nova descoberta – um fragmento do passado – numa ironia arqueológica brutalista.
Como um livro, muitas páginas ficaram aqui por desfolhar. Atravessar as vinte faixas da avenida 9 de Julho, sentir o fervor da Corrientes, percorrer La Boca, San Telmo, Monserrat, de táxi ou no ‘subte’, até Palermo ou Recoleta, ao som de Gardel, Piazzolla ou Gotan Project; e sentir que “as ruas de Buenos Aires estão já dentro de mim”.
3ª edição do Prémio Távora
No dia mundial da arquitectura, dia 1 de Outubro, 2ªfeira, às 22h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, irá ser lançada a 3ª edição do Prémio Távora. Prémio anual promovido pela Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos, em homenagem ao arquitecto Fernando Távora, contempla uma bolsa de viagem, num valor de 5.000€, para a melhor proposta de viagem de investigação. Nesse momento, será anunciada a constituição do júri do Prémio.
Conferência Prémio Távora 2007
A seguir ao lançamento da 3ª edição do Prémio, a arquitecta Sílvia Benedito, vencedora da 2ª edição, irá proferir a conferência “Quadrícula Emocional - Apontamentos para um Urbanismo Endémico (Natureza, Arquitectura e Infraestruturas na fundação das Cidades Atlânticas do Séc. XVI)”. Com o objectivo de documentar e partilhar a viagem que realizou pelas cidades da costa do Brasil (Natal, Olinda, Salvador, Vitória, Rio de Janeiro, Santos), Madeira (Funchal) e Açores (Ponta Delgada) Sílvia Benedito criou o blogue <premiotavora07.blogspot.com>.
Pancho Guedes na Suiça
O SAM, Museu de Arquitectura da Suiça <www.sam-basel.org>, em Basel, inaugurou dia 29 de Setembro a exposição “Pancho Guedes, An Alternative Modernist”. Comissariada por Pedro Gadanho, decorrerá até 20 de Janeiro de 2008. Em Portugal, numa iniciativa independente desta, será lançada uma colectânea de textos da autoria de Pancho Guedes, com o título “Pancho Guedes – Manifestos, Ensaios, Falas, Publicações” (coordenação e introdução de Ana Vaz Milheiro e edição da Ordem dos Arquitectos).
© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 30 de Setembro de 2007
estão já dentro de mim.
Não as ávidas ruas,
incómodas pla turba e pela azáfama,
mas sim as ruas monótonas do bairro,
quase invisíveis de tão habituais,
enternecidas de penumbra e ocaso,
e as outras mais longe,
alheias, de árvores piedosas
onde austeras casinhas mal se aventuram,
enevoadas por imortais distâncias,
perdendo-se em recôndita visão
de céu e de planície. (...)”
(Jorge Luis Borges, in ‘Fervor de Buenos Aires’, 1923)
Buenos Aires é uma cidade espessa, carregada de histórias. Uma cidade que anseia ser lida. Como um livro. Acompanhados por Jorge Luis Borges (1899-1986), interpretamos gestos e olhares, percorremos esquinas e ruelas.
Descobrimos os ‘cafés notables’ de Buenos Aires do fim do século XIX, lugares mágicos de encontro e partilha onde o tempo parece não passar. Cafés protegidos pela cidade, considerados notáveis pela sua atmosfera, antiguidade, desenho arquitectónico e relevância local. Muitos destes cafés, La Perla de Caminito, El Hipopótamo, El Britânico, situam-se numa esquina, no canto de um quarteirão, na convergência de duas ruas, acumulando lugares. O famoso Café Tortoni, aberto desde 1858, vai mais longe – possibilita a passagem entre duas ruas paralelas, a entrada por uma rua e a saída por outra.
Numa das esquinas do centro financeiro de Buenos Aires, na intersecção de duas ruas fervilhantes, agitadas pela “turba e pela azáfama”, encontramos um edifício singular que nos fascina – o Banco Hipotecário Nacional, projectado entre 1958-1966, da autoria do arquitecto argentino Clorindo Testa (n.1923) juntamente com o colectivo SEPRA (Sanchez Elía, Peralta Ramos, Agostini). Constituindo um dos mais marcantes exemplos da arquitectura brutalista, o Banco apresenta uma exuberante exploração plástica do betão, numa delicada inserção urbana. Ampliado pelo acentuamento perspéctico das estreitas ruas, o betão da fachada do edifício destaca-se da envolvente através de uma sequência de lâminas recortadas cuja verticalidade suporta a cobertura do edifício.
O estudo em torno da definição do Brutalismo tem sido aprofundado por Ruth Verde Zein, arquitecta brasileira, autora da Tese de Doutoramento “A Arquitetura da Escola Paulista Brutalista 1953-1973” (2005). No seu estimulante trabalho de pesquisa, Verde Zein procura desmistificar conceitos, rever leituras, questionar pressupostos. Num texto publicado na secção Arquitextos do portal on-line Vitruvius <www.vitruvius.com.br>, propõe “verificar mais consistentemente em que consistem as diversas acepções do termo brutalismo, e decidir quais delas, se alguma, interessaria aproveitar ou descartar.“
Num contexto urbano completamente diferente, encontramos outro edifício da autoria de Clorindo Testa (com Francisco Bullrich e Alicia Cazzaniga) – a Biblioteca Nacional. Obra notável, projecto de 1962, segue a mesma linguagem já explorada no edifício bancário. Sendo construída numa área elevada de um amplo jardim, grande parte do acervo da Biblioteca situa-se enterrado, enquanto que um volume de planta rectangular, onde se localizam as salas de leitura, se solta do terreno apoiado em quatro vigorosos pilares em H. Dos pisos superiores da biblioteca, avista-se a cidade através de generosos vãos. Pelo contrário, o auditório encerra-se completamente à cidade, fechado sobre si próprio, exibindo orgulhosamente o betão bruto da sua forma curva suspensa entre pilares.
A Biblioteca Nacional, de que Borges foi director entre 1955 e 1973, apresenta contudo uma história curiosa. Devido à descoberta, durante as escavações, de vestígios de um gliptodonte, a obra foi suspensa, só tendo sido retomada em 1971. Depois, sofreu ainda mais atrasos, motivados por complicações com as empresas construtoras. Finalmente, fica concluída em 1992. Trinta anos passados desde o projecto de 1962, em plena década de 90, surge então uma nova descoberta – um fragmento do passado – numa ironia arqueológica brutalista.
Como um livro, muitas páginas ficaram aqui por desfolhar. Atravessar as vinte faixas da avenida 9 de Julho, sentir o fervor da Corrientes, percorrer La Boca, San Telmo, Monserrat, de táxi ou no ‘subte’, até Palermo ou Recoleta, ao som de Gardel, Piazzolla ou Gotan Project; e sentir que “as ruas de Buenos Aires estão já dentro de mim”.
3ª edição do Prémio Távora
No dia mundial da arquitectura, dia 1 de Outubro, 2ªfeira, às 22h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Matosinhos, irá ser lançada a 3ª edição do Prémio Távora. Prémio anual promovido pela Secção Regional Norte da Ordem dos Arquitectos, em homenagem ao arquitecto Fernando Távora, contempla uma bolsa de viagem, num valor de 5.000€, para a melhor proposta de viagem de investigação. Nesse momento, será anunciada a constituição do júri do Prémio.
Conferência Prémio Távora 2007
A seguir ao lançamento da 3ª edição do Prémio, a arquitecta Sílvia Benedito, vencedora da 2ª edição, irá proferir a conferência “Quadrícula Emocional - Apontamentos para um Urbanismo Endémico (Natureza, Arquitectura e Infraestruturas na fundação das Cidades Atlânticas do Séc. XVI)”. Com o objectivo de documentar e partilhar a viagem que realizou pelas cidades da costa do Brasil (Natal, Olinda, Salvador, Vitória, Rio de Janeiro, Santos), Madeira (Funchal) e Açores (Ponta Delgada) Sílvia Benedito criou o blogue <premiotavora07.blogspot.com>.
Pancho Guedes na Suiça
O SAM, Museu de Arquitectura da Suiça <www.sam-basel.org>, em Basel, inaugurou dia 29 de Setembro a exposição “Pancho Guedes, An Alternative Modernist”. Comissariada por Pedro Gadanho, decorrerá até 20 de Janeiro de 2008. Em Portugal, numa iniciativa independente desta, será lançada uma colectânea de textos da autoria de Pancho Guedes, com o título “Pancho Guedes – Manifestos, Ensaios, Falas, Publicações” (coordenação e introdução de Ana Vaz Milheiro e edição da Ordem dos Arquitectos).
© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 30 de Setembro de 2007