A Noite em Arquitectura



Recentemente, foram lançados em simultâneo dois títulos da «Colecção Arquitectura» da Relógio d’Água Editores – «A Noite em Arquitectura», de Jorge Figueira e «A minha Casa é um Avião», de Ana Vaz Milheiro. Ambos arquitectos e críticos no jornal Público são hoje dois dos mais relevantes intervenientes no campo teórico e cultural da arquitectura portuguesa.

Neste momento, focar-nos-emos no livro de Jorge Figueira (JF). Reunindo 32 textos, escritos entre 2003 e 2006, JF conduz-nos a um território intrincado, ao longo das várias pulsações da arquitectura portuguesa, por entre cidades distantes como Macau, Maputo ou Los Angeles, em torno de arquitectos e arquitecturas. “A deriva transoceânica de Jorge Figueira”, prefácio do historiador Paulo Varela Gomes ao livro, realça as muitas viagens de JF, nos últimos anos, “para fora da Europa e da sua modernidade rectilínea”. Ao longo dos vários textos, através da sonoridade dos arcos temporais que traça, sentimos nas palavras a viagem pela história, pelo espaço, pelo tempo.

Muito antes de partir para este livro, JF inicia o seu percurso teórico/crítico na revista Unidade, revista dos estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, tendo sido director dos três primeiros números, publicados entre 1988 e 1992. Os três números que dirigiu constituem hoje documentos notáveis dos coloridos anos 80, registos de uma época inquieta, em que a linguagem pop se encontra com a então denunciada dimensão lacónica da Escola. Escreve depois o seu primeiro livro, sequência da Prova de Capacidade Científica apresentada no Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra – «Escola do Porto: Um Mapa Crítico» (edarq, 2002) – um contributo fundamental para a compreensão da história da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Segue-se «Agora que está tudo a mudar» (Caleidoscópio, 2005), livro onde apresenta uma selecção de 23 textos publicados entre 1999 e 2004.

«A Noite em Arquitectura», título do livro de JF sobre o qual nos debruçamos, remete desde logo para um cenário enigmático. Obscuro. Falar em arquitectura envolvido pela névoa da noite pode ser perigoso – a percepção das coisas não é tão evidente, as sombras desaparecem, os contornos não ficam tão claros. Ficamos então mergulhados na escuridão da incerteza, da dúvida. O título, numa alusão à condição contemporânea da arquitectura, pretende registar uma transição – a passagem do dia para a noite em arquitectura.

No início do século XX, anos 20, 30, no período heróico do Movimento Moderno, a arquitectura era motivada por uma ordem higiénica, em que a luz do Sol representava uma aproximação racional de uma ideia de progresso. A luz diurna que ilumina este período é límpida, natural, cheia de esperança no futuro. Como a «Ville Radieuse» de Le Corbusier. Após os acontecimentos trágicos da Segunda Guerra Mundial, dos anos 50, 60, até aos dias de hoje, a luz imaculada reduz a sua intensidade, dando lugar a uma nova luz. Esta nova luminosidade, de crepúsculo, apesar de sombria, não encerra o dia em arquitectura. Antes inaugura um outro momento, sem a clareza de antes, menos evidente, marcado pela ambiguidade e artificialidade. Como a «Cidade Genérica» de Rem Koolhaas. Na realidade, o Sol que iluminava e traçava o rumo foi substituído por uma série de néons e o caminho que percorríamos, a meio do século, ramificou-se. Estaremos perdidos?

É esta atmosfera que envolve os textos reunidos na colectânea de JF, “reflectindo a passagem da luz natural para a luz fluorescente, do reboco pintado de branco para o alumínio e aço corten, da heroicidade para o cansaço, do manifesto para o marketing, da película fotográfica para o digital, do erotismo para a pornografia, da tabula rasa para as ‘preexistências’, do internacionalismo para a globalização...” Este livro permite-nos assim uma adaptação gradual a esta mudança de luminosidade. Não porque dê respostas directas às nossas dúvidas, mas porque fornece pistas e chaves de leitura para a difícil passagem do dia para a noite em arquitectura.


Homeless Mona Lisa
A revista on-line Homeless Mona Lisa <homelessmonalisa.darq.uc.pt> surge em 2003 no âmbito do Grupo de Investigação Arte e Arquitectura do Centro de Estudos do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra (DARQ). Coordenada pelo artista António Olaio com o pintor Pedro Pousada e o arquitecto Jorge Figueira, a revista apresenta colaborações de vários artistas plásticos, arquitectos e escritores. Num dos artigos publicados é possível encontrar um primeiro ensaio de Jorge Figueira ao enredo que cruza os textos do livro «A Noite em Arquitectura».

Edições e/d/arq
O e/d/arq constitui o serviço Editorial do DARQ, tendo como objectivo central apoiar e estimular o desenvolvimento dos mecanismos de ensino e aprendizagem no seio da instituição universitária e no campo da cultura arquitectónica. A funcionar desde 1996, apresenta já um vasto conjunto de títulos <www.darq.uc.pt/edarq>, destacando a revista ecdj - em cima do joelho, com 10 números, e a colecção «Debaixo de Telha», dedicada à produção académica dos docentes.

Revista Murphy
A Murphy – revista académica de História e Teoria da Arquitectura e do Urbanismo, surge em 2006, publicada pelo DARQ e pela Imprensa da Universidade de Coimbra. Paulo Varela Gomes, editor da Murphy anuncia, no texto introdutório do primeiro número, que a revista é um “desafio aos investigadores que partilhem a ambição de ultrapassar as dificuldades que têm justificado algum do atraso académico em Portugal.” Presente on-line em <www.uc.pt/murphy>.

© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 26 de Agosto de 2007