Para uma Nova Europa



Nas duas últimas semanas temos assistido a uma discussão em torno de uma União Ibérica.

A ideia da Ibéria não é nova. No entanto, a ideia foi retomada pelo escritor Nobel português (?) José Saramago que, numa entrevista ao Diário de Notícias, defendeu que Portugal deveria tornar-se uma província espanhola, através de uma integração territorial, administrativa e estrutural com Espanha. As declarações provocaram um forte impacto na esfera mediática nacional e internacional. O fervor ibérico do autor tinha sido já anunciado no livro «A Jangada de Pedra», onde utilizou a ‘jangada’ como metáfora da condição ibérica.
No campo da arquitectura, o madrileno Luis Fernández-Galiano, director da revista espanhola Arquitectura Viva e colaborador regular do El País, já havia defendido, em 2006, a teoria iberista, citando na sua argumentação a já conhecida posição de Saramago. Num texto publicado no número 120, «Casa Nuestra /Iberian Houses», da série «AV Monografias», Galiano revela: “Las veinticuatro casas que aquí se ofrecen, ecuánimemente repartidas entre España y Portugal, quieren ser una metáfora editorial de nuestra residencia compartida, en este finisterre peninsular de una Europa indecisa sobre su futuro.” Esta metáfora, através da apresentação de 24 casas ibéricas, pretende assim reforçar uma determinada ideia de Europa. Uma ideia de Europa que, no meu entender, já não faz sentido.

O “matrimónio político” que Galiano e Saramago referem representa uma ideia que se encerra na geometria pentagonal da Península Ibérica. A visão aberta que a União Europeia representa é muito mais radical, e sedutora. A Nova Europa, sem fronteiras, com a moeda única, marcada pela ‘livre circulação’ da geração Erasmus, pelos vôos ‘low-cost’, representa hoje um território vasto, diverso e único, rico em oportunidades e encontros. Esta nova realidade, cada vez mais intensa, pode ser sentida numa exposição de arquitectura patente em Faro, na Antiga Fábrica da Cerveja. A exposição, intitulada «Livre Circulação: Arquitectos Europeus em Trânsito», comissariada por Luís Tavares Pereira, explora a nova condição europeia através de 36 projectos que reflectem um espaço comum de trabalho, de intervenção. No contexto da Nova Europa, os projectos realizados por relevantes arquitectos europeus fora do seu país de origem revelam a possível dimensão da ‘livre circulação’ no campo da arquitectura. Do conjunto exposto, podemos encontrar vários casos: o Crematório H005, projectado por Eduardo Souto Moura para Antuérpia; a Ponte Pedonal Pedro e Inês, em Coimbra, do britânico Cecil Balmond com Adão da Fonseca; o Novo Parlamento Escocês dos catalães Miralles Tagliabue. Em alguns projectos surge a necessidade de trabalhar com um escritório local que acompanhe a obra no terreno. É o caso da Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, da autoria do grego Alexandros N. Tombazis, com a colaboração do escritório de Paula Santos; ou da Casa da Música, do holandês Rem Koolhaas, com aNC arquitectos, de Teresa Novais e Jorge Carvalho, como escritório local.

Contudo, há ainda um longo caminho a percorrer para uma Nova Europa. No catálogo da exposição aprofunda-se o tema ao longo dos textos de Hans Ibelings, Nuno Grande, Pedro Gadanho, Jorge Figueira, Stefano Boeri, Joaquim Moreno, entre outros. Com o objectivo de melhor compreender o panorama geral, lançou-se um inquérito aos arquitectos participantes no sentido de os interrogar sobre as questões associadas ao contexto da ‘livre circulação’ – a logística, a distância, a língua, a legislação. Publicadas no catálogo da exposição, as respostas ao inquérito, concebido por Paula Santos, traçam um invulgar retrato do arquitecto. Um arquitecto imerso na sua prática, confrontado com os processos de trabalho, reflectindo a sua acção. No seu conjunto, o inquérito deu origem a resultados muito diversos: testemunhos, desabafos, orientações, conselhos, apelos e confissões.

O conceito da Livre Circulação também não é novo. Como lembra Peter Märkli, na resposta ao inquérito, “a mobilidade não é exclusiva do nosso tempo. [...] Os pintores, escultores e arquitectos sempre receberam encomendas de clientes de todo o mundo.” No entanto, actualmente, esta condição generalizou-se, multiplicou-se. Os escritórios de arquitectura, mesmo os mais pequenos, têm possibilidade de aceder a oportunidades de trabalho fora do seu país de origem. Luís Tavares Pereira, no texto de introdução do catálogo, aponta o caminho – “é necessário ir para onde o trabalho está, e é necessário reestruturar os ateliers, os processos de trabalho, as complementaridades e afinidades para fazer face a este desafio”.

O desafio que sentimos está intimamente ligado a uma inquietação que nos perturba. Uma inquietação interior motivada pelo contexto exterior, que nada tem a ver com a discussão em torno de uma União Ibérica. Porque hoje, recorrendo à metáfora de Saramago, embarcamos numa jangada europeia, para uma Nova Europa.


A10 – New European Architecture
A revista “A10 – New European Architecture”, dirigida pelo holandês Hans Ibelings, é um bom exemplo do espírito optimista da Nova Europa. Fundada em 2004, <www.a10.eu>, publicada seis vezes por ano, a revista pretende acompanhar a produção arquitectónica contemporânea através de uma vasta equipa de correspondentes, oriundos dos vários cantos da Europa. A A10, para Ibelings, poderia representar a tal metáfora de uma determinada ideia de Europa. No texto do catálogo da Livre Circulação, Ibelings defende que “não faltam razões para a Europa não estar (ainda) unida no sentido geográfico, social, político ou económico.”

Exposição Livre Circulação
Em Faro, na Antiga Fábrica da Cerveja, até 30 de Setembro, das 17h00 às 00h00, estará patente a exposição “Livre Circulação: Arquitectos Europeus em Trânsito”, juntamente com a exposição de arte contemporânea “Livre Circulação/Toll Free”, comissariada por João Fernandes, que reúne parte da Colecção da Fundação Serralves. As exposições estão integradas no programa Allgarve, iniciativa do Instituto do Turismo de Portugal, com o alto patrocínio do Ministério da Economia e da Inovação, que procura diversificar a oferta turística e qualificar a oferta cultural da região algarvia.

Habitar Portugal 2003/2005
Sobre a realidade portuguesa, a exposição itinerante ”Habitar Portugal 2003/2005” estará patente em Tavira, até 31 de Agosto, na Biblioteca Municipal Álvaro de Campos, reabilitação da antiga cadeia civil de Tavira, projecto da autoria de João Luís Carrilho da Graça. A exposição apresenta 77 obras de arquitectura, completadas entre 2003 e 2005, que pretendem, segundo o comissário geral José António Bandeirinha, “dar uma imagem mais apropriada das diversas realidades que compõem este país”. Uma selecção de 18 obras fez parte da representação portuguesa na Bienal de Veneza de Arquitectura de 2006.

© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 29 de Julho de 2007