
O novo livro de Ana Vaz Milheiro, «A minha casa é um avião», foi lançado recentemente pela Relógio d’Água Editores. O lançamento, feito em simultâneo com «A Noite em Arquitectura» de Jorge Figueira, permitiu uma feliz coincidência, possibilitando uma panorâmica sobre a arquitectura portuguesa a partir da visão de dois autores, diferentes.
O livro de Ana Vaz Milheiro (AVM) reúne 33 textos, escritos entre 2000 e 2006, publicados, na sua maioria, no jornal Público e no JA - Jornal Arquitectos. A colectânea apresenta-se com o mesmo título de um dos seus artigos publicados no Mil Folhas – «A minha casa é um avião» – texto sobre a Casa em Sintra do arquitecto Paulo Gouveia, a quem dedica o livro. Nesse artigo, AVM foca um dos espaços mais “irreais” da Casa, um espaço ambíguo com janelas para o interior, que descreve como “um espaço a planar sobre o real: o ‘cockpit’ do avião transformado no vestíbulo-biblioteca da Casa.”
Com base nesta imagem, o arquitecto Manuel Graça Dias escreveu o prefácio «A aviadora que ri», destacando a determinação, intuição, sensibilidade e clareza de AVM, com quem esteve à frente do Jornal Arquitectos, na direcção de 23 números (195-217), de 2000 a 2004. No prefácio, Graça Dias realça “o seu papel de ‘ponte’ com o Brasil – com a contemporaneidade brasileira, (...) ‘ponte’ que tem vindo a construir, lenta e seguramente”.
A partir de Lisboa, do avião de AVM, sobrevoamos diversos territórios, várias cidades portuguesas. No meio do Atlântico, rompemos “o isolamento das ilhas”. Na falésia madeirense, AVM encontra o Centro de Artes – Casa das Mudas de Paulo David e, no Funchal, detém-se no Hotel-Casino de Oscar Niemeyer e Viana de Lima. Na paisagem açoriana, apaixona-se pela peculiaridade das obras de Paulo Gouveia e descobre a Casa João Pacheco Melo de Pedro Maurício Borges, que acabou por ganhar o prémio Secil em 2002. Confronta a Biblioteca Central do jovem Atelier de Santos, em Ponta Delgada, e os anfiteatros da Reitoria da Universidade da dupla Inês Lobo e Pedro Domingos. No entanto, apesar do seu fascínio pela “periferia insular”, a sua viagem mais marcante é o Brasil. É São Paulo.
AVM possui aquela generosidade, especial, própria do crítico, do editor, que partilha com o outro as suas reflexões, as suas leituras. Através da sua escrita, redescobrimos o Brasil, as suas personagens, os seus mitos. De facto, foi AVM que nos apresentou o colectivo paulista MMBB e que nos deu a conhecer a história da revista Caramelo dos estudantes da Faculdade de São Paulo. Com AVM, entrámos no fascinante universo de Paulo Mendes da Rocha e interpretámos o projecto de Siza Vieira para o museu da Fundação Iberê Camargo, cruzando pertinentes imagens e referências.
O início da sua relação com o Brasil, registado no pequeno texto «Visões do Paraíso», foi tenso – a expectativa da viagem rumo a um “país longínquo, sossegado, tropical”, é confrontada com a violenta urbanidade de São Paulo e com uma outra História. Ao longo da sua estadia, a experiência feita de descobertas e de encontros vai permitir reconciliar-se com a cidade, com a cultura brasileira. No fundo, AVM liberta-se deixando-se encantar “pelas sonoridades dessa arquitectura que se comporta como se o mundo todo necessitasse ainda de abrigos, de amplos gestos para contrariar a injustiça social, numa obsessão pela beleza.” A arquitectura brasileira torna-se então um campo de fascínio e de estudo que serve de base ao doutoramento desenvolvido na Faculdade de Arquitectura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e que dá origem ao livro «A Construção do Brasil – Relações com a Cultura Arquitectónica Portuguesa» (FAUP publicações, 2005).
No seu conjunto, os textos reunidos nos livros de Ana Vaz Milheiro e de Jorge Figueira propõem coordenadas. Numa época ansiosa, estes textos, escritos nos primeiros anos do século XXI, reflectem um possível retrato da arquitectura portuguesa contemporânea. Um retrato das suas motivações e preocupações, dos seus fascínios e esperanças, dos seus desgostos e angústias.
Vitruvius
O portal on-line Vitruvius – universo paralelo de arquitectura e urbanismo <www.vitruvius.com.br>, editado pelos brasileiros Abílio Guerra e Silvana Romano Santos, constitui uma das plataformas mais interessantes na Internet, apresentando várias secções dedicadas à arquitectura, urbanismo, arte e cultura, com maior relevo para o Brasil e América Latina.
Bienal de Arquitectura de S. Paulo
De 10 de Novembro a 16 de Dezembro, irá ter lugar a 7.ª Bienal Internacional de Arquitectura de São Paulo. Portugal estará oficialmente representado pela exposição «Europa – Arquitectura portuguesa em emissão», projecto comissariado pelos arquitectos Jorge Figueira e Nuno Grande. A Bienal irá homenagear os dois Pritzkers brasileiros – Oscar Niemeyer (1988) que comemora 100 anos de vida e Paulo Mendes da Rocha (2006).
Instituto Tomie Ohtake
A exposição «Arquitecturas em Palco» de João Mendes Ribeiro, distinguida com a medalha de ouro na categoria Best Stage Design na 11.ª Exposição Internacional de Cenografia e Arquitectura para Teatro – Quadrienal de Praga 2007, foi inaugurada no dia 24 de Outubro no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde estará patente até 11 de Novembro.
© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 4 de Novembro de 2007