O Elogio da Mentira na Arquitectura




“No hay banda! Todo es una ilusión!” (Club Silencio, in “Mulholland Drive”, David Lynch)

“A arquitectura funciona por um processo mecanicista, logo para ficar bonita tem que mentir.” (Eduardo Souto Moura, in Trienal de Arquitectura de Lisboa 2007)

No primeiro dia das Conferências Internacionais da Trienal de Arquitectura de Lisboa 2007, na sessão dedicada à “Realidade e Cenografia”, Eduardo Souto Moura fez uma apresentação memorável sobre o tema da verdade e a mentira na arquitectura. Para melhor explicar a sua tese, Souto Moura apresentou o projecto da Torre do Burgo, na Avenida da Boavista no Porto. Revelando pormenores e opções projectuais, discorreu sobre a forte carga cenográfica que o edifício encerra. Na realidade, o arquitecto expôs o modo como reagiu, como pensou, perante as dúvidas e os problemas levantados no processo de concepção, ao nível da regulamentação e da construção. Nesse sentido, perante a plateia, confessou situações onde a arquitectura teve de mentir para ficar bonita.

O projecto do conjunto da Torre do Burgo, constituído por um volume horizontal com 3 pisos e outro vertical com 17 pisos, foi iniciado em 1991 e concluído em 2006. Uma das maiores ‘mentiras’ presentes na Torre do Burgo acontece na simulação da construção da torre como resultado de um processo faseado de empilhamento de elementos de alumínio e granito, como se de um castelo de cartas se tratasse. Souto Moura consegue também iludir a noção da escala da torre de 17 pisos, através do rígido desenho das aberturas do edifício. Ou, ainda, iludir com a falsa porta de entrada na torre que simula ter sido uma simples rotação de parte da fachada. No entanto, com requintes de preciosismo, Souto Moura simula um ‘corte construtivo’ no volume horizontal, tornando assim evidente a mentira.

Ao criar a ideia de uma torre composta por peças sobrepostas, o arquitecto actua no campo do imaginário. Neste contexto, a mentira é entendida como uma ficção. Como uma ilusão da realidade. Encontramo-nos, portanto, no plano da simulação, do visível/invisível, da omissão; num plano em que se articulam elementos num curioso jogo de manipulação do espaço, do olhar e do movimento. Mas não é somente na Torre do Burgo que este fascínio pela mentira se revela. A depuração minimalista, característica da série de habitações unifamiliares da primeira fase de Souto Moura, pode também ser interpretada como uma ‘mentira’, na medida em que por detrás da serena superfície minimalista das suas soluções se esconde um exigente processo de desenho e pesquisa que procura dissimular a técnica.

Na apresentação do projecto da Torre do Burgo, ao revelar a sua intenção de iludir, Souto Moura confessa a adesão a uma retórica pós-modernista onde a dimensão cenográfica, naturalmente, emerge a partir da sua rigorosa produção compositiva. Souto Moura entra assim no mundo do fingimento, transportando-nos para outros territórios, mais ambíguos, “complexos e contraditórios”. A emergência de uma certa dimensão cenográfica pode também ser lida no trabalho de Mies van der Rohe, referência seminal no percurso de Souto Moura. Na realidade, os artifícios das soluções de Mies são peças fundamentais para uma História da Mentira na Arquitectura, como é o caso do famoso pilar do Pavilhão de Barcelona, composto por 4 cantoneiras de aço revestidas a chapa de metal cromado, ou os perfis metálicos das esquinas das torres do Lake Shore Drive em Chicago. No final, Mies e Souto Moura não sairão castigados deste processo, afinal – God is in the detail.

Em contraponto, poderíamos aqui também fazer o Elogio da Verdade na Arquitectura – focaríamos então o Museu Pompidou com as coloridas infra-estruturas orgulhosamente expostas ou a sinceridade do béton brut de Le Corbusier ou o divino tijolo de Sigurd Lewerentz.

Mas, neste momento – No hay banda! Todo es una ilusión! – e percorremos as inúmeras galerias da mentira na arquitectura acompanhados por Eduardo Souto Moura ao som dos Fleetwood Mac, ouvindo tell me lies, tell me sweet little lies...


Caleidoscópio - Santíssima Trindade
A editora Caleidoscópio <www.caleidoscopio.pt>, sob direcção de José Manuel das Neves, lançou um número da colecção Arquitectura Ibérica especialmente dedicado à nova Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, projecto (1997-2006) da autoria do arquitecto grego Alexandros Tombazis em colaboração com o escritório local da arquitecta Paula Santos. De destacar a entrevista de Carlos Castanheira a Alexandros Tombazis e Álvaro Siza no final do livro.

Últimas Reportagens - Fátima
A partir do olhar do fotógrafo Fernando Guerra, o site Últimas Reportagens <www.ultimasreportagens.com> apresenta um trabalho fotográfico impressionante que acompanha a produção das obras de arte criadas para a Igreja da Santíssima Trindade. O primeiro documentário acompanha o processo de fundição dos baixos relevos em bronze do artista Pedro Calapez para as portas da nova Igreja. O segundo documentário acompanha a preparação da “Cruz Alta” do artista Robert Schad até à sua colocação no Santuário.

Teatro e Cenografia - Coimbra
De 7 a 29 de Fevereiro, no Teatro Académico de Gil Vicente <http://dupond.ci.uc.pt/tagv>, em Coimbra, estará patente a exposição da cenografia da peça “Turismo Infinito” da autoria do arquitecto Manuel Aires Mateus, com encenação de Ricardo Pais e produção do Teatro Nacional S. João. A exposição dá assim início ao ciclo “Teatro e Cenografia”, tendo “como objectivo apresentar a cenografia contemporânea enquanto cruzamento de linguagem teatral e expressão arquitectónica”.

© Pedro Baía
in SE7E / O Primeiro de Janeiro, 27 de Janeiro de 2008